Ininterrupto

Tem uma coisa que me encanta em alguns jogos. Sei que já falei da história, das músicas, da criatividade e todas essas coisas complexas. Mas tem uma coisa mais técnica e sutil que me encanta em jogos, o streaming.

Só dois exemplos me vêm à mente, porque lembro de poucos jogos que fazem um bom uso disso. O primeiro é The Legend of Zelda: Wind Waker, e o outro é GTA San Andreas. Sério, tem coisa melhor para a imersão do que avistar uma cidade ao longe, ir se aproximando, se aproximando, e entrar nela aos poucos?

Wind Waker fez isso com maestria. Você está lá, de barco, navegando na melancolia do mar. A alegria é grande quando se avista uma ilha. Então você torce para que o vento ajude, segue para lá aos poucos, desembarca onde quer e explora o lugar. Ótimo. Nas cidades então, melhor ainda. Você sente como se o mundo já existisse antes de você chegar, e não o contrário. Conforme você chega perto da cidade e vê as pessoas caminhando, as crianças brincando, a impressão que passa é que o lugar tem vida, e você é apenas mais um visitante ali.

Bem diferente do sistema de loading comum. Minha birra nem é tanto com a demora para carregar um cenário, é com o loading em si. Usando o exemplo de como Wind Waker poderia ter ficado, você avista a ilha ao fundo. Música épica de Zelda quando o dia clareia. Os primeiros raios de sol chegam até você e a ilha vai crescendo conforme o vento leva seu barco. Alguns momentos depois, e lá está ela. Linda, imponente. O moinho girando incansável. PÁ, uma tela preta aparece, com “loading…” no canto da tela. Dois segundos se passam, e então você já está na ilha, a embarcação estacionada em um lugar arbitrário aí perto, e as pessoas começam a caminhar, como se esse mundo não existisse quando você está longe.

Horrível.

Meu Nintendo DS está para chegar, e eu espero sinceramente que Phantom Hourglass não seja assim, com loading ao desembarcar. Sabe aquelas coisas simples da vida que fazem seu dia mais feliz? O streaming de Wind Waker era uma dessas coisas.

Com GTA Vice City acontecia mais ou menos isso. Você roubava um carro, sintonizava a rádio de rock e passava a fugir da polícia. Entra aqui à esquerda, ali à direita e está na ponte, rumo ao outro lado de Vice City. O som dá o clima para a perseguição, enquanto você mostra suas habilidades ao volante desviando de todos os carros que vêm no sentido oposto. Você já enxerga os prédios na outra ilha, e sua mansão no meio do arquipélago. A polícia está cada vez mais perto, você dá uma fechada PÁ, a tela muda para uma espécie de banner. “Welcome to Vice City”, ela diz, disfarçando o loading. Dois segundos depois, você está novamente correndo da polícia, rumo às ruas da cidade.

Isso foi magistralmente consertado em San Andreas. Aqui somos apresentados a um grande estado virtual, com três cidades separadas por um rio, montanhas e zonas rurais. O que significa que dessa vez você pode estar com sua 4×4 sobre uma grande pedreira, avistando San Fierro ao longe, e em uma só viagem ininterrupta você chega à cidade. Como se todos estivessem vivendo suas vidas desde quando você olhou para as construções, lá de longe, e decidiu fazer uma visita à namorada. Você é um nada. Você é uma pessoa a mais na cidade, e não um ser imponente que tem poder sobre a existência alheia.

Mesma coisa com florestas. Você vê a floresta lá de cima, despenca da rodovia à beira do penhasco e pronto, está na floresta, em meio às árvores. Nada de loading. Nada de “calma aí que a gente tá montando a floresta”, ou de barreiras imaginárias para que você não possa se aventurar em meio aos esquilos.

Aliás, esse foi um dos pontos que não gostei em Twilight Princess. Ao contrário da versão anterior, que tinha um mundo marítimo aberto e sem paradas para carregar durante a viagem, Twilight nos apresenta à velha e boa Hyrule, mas cortada em pedacinhos. Em um momento você está no campo ao sul da Castle Town, cavalgando Epona, e então resolve ir para o norte. Como todas as áreas são divididas por montanhas intransponíveis, você primeiro deve ir para o campo oeste e então para o campo norte. Ou algo assim. Mas pelo menos dois loadings são necessários. Nada de cavalgar indefinidamente pelos campos, de forma ininterrupta. As telas pretas, por mais curtas que sejam, estão sempre presentes quando você resolve mudar de ares.

Nota: esse post foi produzido baseado quase completamente em lembranças, lembranças de fatos talvez reais, que insistem em me fazer pensar que todo jogo devia ter streaming em vez das medonhas telas quebra-clima.

Nota 2: você sabe que alcançou níveis perigosos de nerdice quando está chegando de ônibus em Santa Maria, vê a cidade e seus carros tamanho-formiga por cima do viaduto a alguns quilômetros de distância e pensa “nossa, streaming perfeito”.

Nota 3: nada a ver com o post, mas você também sabe que alcançou níveis perigosos de nerdice quando está andando de carro à noite, as lentes de contato embaçam, as coisas ficam desfocadas à frente e você pensa “nossa, que merda esses gráficos”.

21 respostas para Ininterrupto

  1. Nightshadew disse:

    Uau, raro ter tanto atualização. Não vejo o que comentar além de ”concordo, streaming ftw”.

    E o verdadeiro ápice da nerdice é fazer decks de magic na aula de matemática, porque você já tem todas as cartas decoradas na cabeça…

  2. UHAuhauHA mais um post interessante ^^ Vamos lá:

    Eu acho que streaming é uma das técnicaz mais eficazes dos grandes games. Como você citou, jogos como WW e GTA usam e abusam disso. No PH de DS as viajens pelos mares não possui loadings, apenas uma animação de entrada e saída dos locais. Normal.

    E comentando sobre as notas: quando eu vejo as coisas desfocadas, como vc citou na nota 3, eu penso: “puts, os caras nem para usar um anti-aliazing”

  3. Argus disse:

    As telas de loading foram o fator que me distanciou do Playstation à época do lançamento. Todos os amiguinhos do prédio carregando pilhas e pilhas de CDs pirata por aí e eu, sozinho, com os meus cinco cartuchos de SNES.

    Haha, agora sou um feliz portador de um Wii. Otários.

    É, eu gosto de streaming.

  4. Gui Stadler disse:

    Porra, Lipe. Andou escrevendo posts ao longo do ano pra postar duma só vez?

    ALlskfsahfausfausf😀

    Um puta post, me deixou com vontade de fechar Wind Waker de novo…

    Mas antes vou ali estudar Hidrostática e Termologia…:(

  5. Lipedal disse:

    Hahahhaha, eu também tô estudando pro vestibular. De novo😦

    Eu até ia deixar esse post pra hoje, mas aí percebi que já ia fazer uma semana desde o último! É sacanagem, você escreve, escreve, e quando vê já passou uma semana e tem que escrever de novo. Vou ver se volto a diminuir o intervalo entre os posts, só precisa assunto.

    Lucas, Night, cabe aqui uma nota 4.

    Nota 4: por mais estranho que você seja, nunca pense que já alcançou níveis perigosos de nerdice. Sempre tem alguém que vai te superar😀

  6. Sardo disse:

    Muito bem observado.
    Telas de Loading quebram o clima.
    E concordo com você quanto ao Zelda TP. Tu tem que seguir a história “indiretamente”.
    Tu tem aquele puta cenário, mas é por alí, E só por alí que tu encontrará a saída.
    Nada de querer ir por lá, é por ali e pronto, PORRA!😄

    E quanto as notas. Ainda não passei por isso..
    Graças. xD~

  7. Fabio Bracht disse:

    Velho, tá aí um ótimo tema!

    Tem um joguinho que usa esse tal de streaming: Rogue Galaxy, o último RPG da Level 5 pro PS2. Não tem UM loading no jogo, exceto quando é pra rolar cutscene ou pra — esse é óbvio — dar load no save. Tu tá na cidade lá, grandona e tal, aí avista uma pequena lojinha de armaduras. Chega perto da porta, ela abre e tu já vê o interior da loja. Compra, sai e tá de volta na cidade numa boa.

    Só que esse jogo também tem uma coisa bem tosca que eu acho que tem a ver com o streaming. Os NPCs só aparecem quando estão a uma certa distância de ti, e essa distância não é grande. Tipo, se fosse duas vezes maior ainda seria estranho. Aí dá uma sensação muito chata de que tu tem que literalmente andar em cada pedacinho do cenário pra ver se não “aparece” nenhum NPC. Pelo menos pra mim, que tenho neura de não deixar passar nem um NPC em branco.

    Esse lance dos NPCs ficou meio lixo, e enredo não é aquele FFVI da vida, mas o joguinho é super do caralho. Quem quiser um RPG bacana no PS2 (com streaming), tá aí a dica.

  8. Lipedal disse:

    Cara, uma coisa que eu ainda não tinha visto, até onde lembre, é esse esquema de entrar na casa sem loading. Mesmo os jogos streamados que eu citei (San Andreas e Wind Waker) têm uma tela de transição quando se entra em qualquer lugar. Inclusive esqueci de acrescentar aí no post: o streaming perfeito pra mim será quando tudo for um só cenário, inclusive o interior das casas, sem a necessidade de mudança de tela.

    MAS aí entra o problema dos NPCs carregados “à queima-roupa”. Isso é horrível, e acho que acontece por causa do streaming mesmo. Até onde eu lembro isso não acontece em GTA e Zelda, mas nada é perfeito😛

    Um jogo que quis fazer de conta que não tinha loading e sentou na graxa foi Tony Hawk’s American Wasteland. As fases são separadas por corredores pequenos, como um esgoto ou um trecho de shopping, que disfarçam o loading entre um ambiente e outro. O problema é quando você passa muito rápido por esse lugar, emendando um combo nos corrimãos e etc, chega do outro lado e a porta para o outro ambiente ainda não abriu. Aí fica aquela sensação de “ahá, te peguei, tu não tem streaming merda nenhuma!”, e você fica esperando a fase acabar de carregar pra que a porta se abra.

    De qualquer modo, me interessei nesse Rogue Galaxy agora. Quem quiser me dar um PS2 bacana, tá aí a dica.

  9. Esse efeito é muito legal. Eu vi isso muito bem feito em “Shadow of Colossus”, lógico, não tem ninguém no mapa. Mas vc vê aquela montanha LÁ ATRÁS e vai…vai…vai e chega nela! Sabe, não é aquela coisa “de papel” no fundo.

    Um loading que eu sempre lembro é o do Resident Evil (a porta abrindo), eu gostava, dava um clima de suspense.

    Abraço e parabéns pelo post!

  10. Gui Stadler disse:

    Shadow of Colossus realmente é bem feito…EU ACHO que exageraram nos efeitos de névoa, mas não é nada que comprometa o jogo e tire toda a fodelância que só ele consegue ter😀

  11. Argus disse:

    Alguém aqui lembra de TODOS os Metroid Primes e as portas que ficam mais de um minuto fechadas para a sala seguinte carregar?

  12. Nightshadew disse:

    Mais de 1 minuto? Ô exagero…

  13. Argus disse:

    No Metroid Prime 2 acontece às vezes |:

  14. Lipedal disse:

    É mesmo, esqueci de citar Shadow of the Colossus! Streaming muito legal também, e a névoa que aparece em certos pontos deve servir justamente pra ajudar no processo. Antes uma fumaceira braba do que o cenário surgindo a dois palmos do protagonista.

  15. Alves disse:

    Meu pensamento foi “comentar falando para jogar Shadow of the Colossus e ICO, jogos com uma imersão em cenario muito fodida… principalmente SotC que tem mais cenario do que se usa diferente do costume de só se fazer “areas uteis” nos jogos”.

    Mas já conhecem😦

    E SotC tem muita gambiarra de programação envolvida, incluindo cenarios falsos que ficam lá enquanto esta carregando o original, o esquema no ICO é que o castelo inteiro tu ve e ve que não é cenario falso, o caminho que tu faz no final do jogo da para ver logo no começo dando uma virada de camera, é um planejamento de background extremamente fodido e isso num jogo do PS2 que foi lançado em CD.

  16. Gui Stadler disse:

    Esqueci de citar ICO também…assim que a mina abriu a primeira portinha mágica lá e eu vi o banquinho…aquele background lindo e eu “poxa, será que pararei lá?”

    Qual teria sido minha surpresa ao CHEGAR LÁ?

    [:D]

  17. Cephiro disse:

    Realmente, streaming é o que há. Poderia ter sido melhor usado no Oblivion, assim como foi no Morrowind, apesar de este ser mais sem vida na minha opinião… Mas quem já jogou as expansões sabe qual a sensação de caminhar pelas florestas de Solstheim..
    Phantom Hourglass poderia ser mais “realista” caso as ilhas não fossem uma forma aleatória com casinhas no meio do mar… Você só pode parar o barco em um só ponto, onde nem dá pra ver o porto, e então a visão muda pra 2D mascarada por uma animação. =/
    Mas tirando isso, o jogo vale a pena, lipeidoso. Pode baixar sem medo.

  18. Lipedal disse:

    Não sabia dessa dos truques de SotC, o jogo me enganou bem. Do jeito que vocês falam, Ico (ou ICO, sei lá) deve ser muito interessante, pelo menos nesse sentido da ambientação. Eu adoro essa sensação “opa, eu já vi essa estradinha lá no começo da história”, acontece de vez em quando nos novos Prince of Persia, acho que sem streaming, só com manipulação de cenários mesmo.

    Se um dia eu tiver um PS2 à disposição, cujo dono não jogue só Winning Eleven, ou cujo dono seja eu, preciso jogar Shadow of the Colossus e Ico. Entre outros, claro😛

    Cephiro, você tirou uma parte da vontade que eu tinha de jogar Phantom Hourglass, mas não creio que vá prejudicar a experiência no fim das contas. Eu nunca reclamei de um Zelda portátil, não vai ser por causa de uma tela de transição que vou deixar de gostar desse.

  19. Ow, VSF… (no bom sentido)

    Senhor Lucas Patrício comenta em todos os blogs da Terra?
    Não tem o que fazer não senhor Patrício? (hahahaha)

    Pois bem, vou fazer um blog oculto, escondido nos confins da internet e quero ver você comentar.
    (uhauahauhauah)

  20. marcus disse:

    Este post me lembrou Daytona USA, onde conforme tu ia dirigindo pela pista, o cenário ia sendo construído aos poucos, em blocos.

  21. primeira vez que visito esse blog…! bom falou tudo, mas…. cof cof… mas chato que o loading do metroid prime 3 não existe ele nem avisa que ta carregando e vc pensa: fudeu a porta não abre!

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