Cachorros, coelhos e rainhas do Canadá

Começou com quadrinhos, desenho animado, e então um jogo. Um adventure daqueles clássicos do fim da década de 80 e começo dos anos 90, como Day of the Tentacle, Maniac Mansion e Secret of Monkey Island. Com o nome de Sam & Max Hit the Road, a aventura apresentava a dupla de “policiais freelancers” viajando pelos EUA em busca do Pé Grande, ou algo assim. Só joguei o começo e achei difícil na época.

Mas engraçado. Muito engraçado.

Então dá pra imaginar a alegria dos fãs quando foi anunciado, na E3 de algum ano por aí, que uma continuação estava pra sair. Com gráficos refeitos, agora completamente em 3D, Sam & Max: Freelance Police não durou muito. Foi só um trailer e pronto, a Lucas Arts anunciou o cancelamento.

Mas o desolamento durou pouco: ano passado surgiu, sem muito alarde, Sam & Max – Season 1, uma temporada de pequenas aventuras da dupla, a ser lançada em seis episódios.

“You crack me up, little buddy.”

Sam & Max – Season 1
Plataformas: PC
Data de lançamento: 01/11/06 a 10/05/07
Produtora: Telltale Games, GameTap
Desenvolvedora: Telltale Games

Uma das grandes vantagens do lançamento episódico é poder melhorar o conteúdo de vez em quando, em vez de mandar ver em um jogo grande que pode não ter a aceitação prevista. Cada episódio dura de uma a três horas, dependendo da capacidade do jogador de resolver os puzzles. A jogabilidade é ainda mais simples que a de Hit the Road: um clique apenas, seja para andar, usar, pegar. O jogo decide o que faz, sem aquelas opções clássicas de Olhar, Falar, Lamber, Ligar, Desligar, Usar, Pegar e Chutar. Minha opinião? Ficou ótimo.

Episode 1 – Culture Shock

Sam: Someone once told me that the contents of a lava lamp make an excellent hand cream.
Max: That was me!
Sam: Which is why I haven’t tried it.”

Em Culture Shock, um trio de ex-estrelas-mirins vem vandalizando a vizinhança, aparentemente sob o efeito da hipnose de um vídeo distribuído gratuitamente. Quem jogou a primeira aventura reconhecerá logo de cara o escritório e seus arredores, mas dessa vez somos apresentados ao dono da loja de inconveniência, Bosco, e à garota com problemas em decidir sua carreira profissional, Sybil. O episódio é dos mais curtos, mas dá uma boa introdução à aventura que vem pela frente, com direito a passeadas de carro e uma jornada pelos sonhos do cachorro Sam.

Episode 2 – Situation: Comedy

“IN CASE OF FIRE: THIS DOOR WILL BE LOCKED AND CAMERAS WILL BE SWITCHED ON FOR IMPROMPTU REALITY SHOW”

A apresentadora de TV Myra Stump enlouqueceu e está mantendo seu público prisioneiro em seu programa há dias, distribuindo carros e eletrodomésticos quando tudo o que eles querem é ir para casa. Cabe à dupla de policiais ir aos estúdios da Warp TV e conseguir acesso ao palco do talk show, tendo que participar de um sitcom e do Embarassing Idol no caminho.

Como em todos os outros episódios, o cenário da vizinhança se repete, mas dessa vez há um estúdio de televisão para explorar, com diversos programas a participar e personagens novos para conhecer. Rende mais tempo de diversão do que Culture Shock, que só tinha a rua do escritório e o instituto de reabilitação de ex-estrelas-mirins. Cada cenário é uma paródia à parte, seja às sitcoms e suas risadas de fundo ou aos programas de culinária com bolos sempre perfeitos.

Episode 3 – The Mole, the Mob and the Meatball

Max: I’ve always wanted to be a thug. Officially, I mean.”

Dessa vez a dupla recebe a missão de investigar a Máfia dos Brinquedos, que supostamente se esconde no Cassino Sem-Máfia de Ted E. Bear. Se a princípio o episódio parece enjoativo por começar no mesmo escritório, com os mesmos vizinhos e uma pequena área nova, a missão ganha fôlego quando você precisa fazer certas escolhas morais para ser admitido na máfia.

Entre uma partida de cartas com um espertinho e uma perseguição veloz pelas ruas da cidade, ainda dá pra aproveitar a ótima trilha sonora estilo Poderoso Chefão. Esse provavelmente é o jogo mais curto da série, mas minha horinha e meia gasta nele valeu a pena.

Episode 4 – Abe Lincoln Must Die!

Max: We have nothing to fear but fear itself. And the Chupacabras! Madre de Dios, it’ll kill us all!”

Se os jogadores já estavam cansados de começar a aventura no maçante escritório da dupla, o episódio 4 vem e coloca Sam e Max em frente à Casa Branca, para resolver um problema relativo ao presidente. O cara que manda naquele país do norte está criando leis idiotas enlouquecidamente, o que no fim das contas não é tão incomum. Mas quando ele resolve impôr o registro obrigatório de armas, o coelho psicopata não deixa por menos e resolve se candidatar.

A vizinhança ainda está lá, assim como o apartamento, mas a presença da Casa Branca não é só física: Max vira presidente dos EUA e essa mudança se mantém pelos próximos episódios de forma bem engraçada. Mas para isso ele precisa confrontar a estátua reanimada de Abraham Lincoln em um confronto eleitoral. Destaque para um grande show musical envolvendo um guarda-portas e a Sala de Guerra.

Digamos que é um episódio renovado, já que a Telltale ouviu as sugestões e críticas dos jogadores e as colocou em prática em Abe Lincoln Must Die!. Bem que eles podiam ter implementado o clássico duplo-clique-pra-passar-direto-pro-outro-cenário, porque as distâncias agora são maiores e pode cansar ter que caminhar de um lado para o outro com Sam.

Episode 5 – Reality 2.0

Sam: Look behind you, a three-headed internet!”

Enfim a temporada chega a seu ápice nérdico. O plano malévolo que parece ligar todos os pontos da trama invade a internets, com o intuito de prender todas as pessoas a essa nova realidade, a Realidade 2.0. A dupla conhece o meio-elfo Bosco, o sistema anti-spam com a cara de Myra Stump e logra um firewall.

O interessante desse episódio é que não há muitos ambientes novos, a inovação é na versão ciberespaço da rua do cachorro e do coelho. Usando óculos de realidade virtual é possível alternar entre os dois planos instantaneamente, o que leva a alguns puzzles bem interessantes. Além disso, a Telltale resolveu escutar seus fãs de novo e colocou mais itens à disposição, e em dose dupla: cada objeto coletado tem sua versão virtual. Sem contar que, ao invadir a sala do sistema (que tem uma música bem “fim de mundo”), dá pra sacanear as propriedades da Matrix e apagar a lei da gravidade ou a terceira dimensão, entre outras coisas.

Sem dúvidas o melhor episódio da franquia juntamente com o sexto, por mexer com todas essas coisas que fazem parte do nosso universo: batalha por turnos, internet banking, espadas +2 e por aí vai. Aprecie sem moderação, e surpreenda-se com o final.

Episode 6 – Bright Side of the Moon

Sam: How does it do that, when there’s no wind on the moon?”

O gran finale. A noite desce sobre o escritório e as casas das redondezas, iluminados pela luz da lua. E é para lá que Sam e Max devem ir, agora que sabem quem é a mente por trás de tudo que aconteceu até agora. Mas nada de passar o episódio inteiro juntando peças para construir um foguete: o humor nonsense da série mostra a que veio na tela de apresentação, quando o carro da dupla simplesmente sobe para a lua, e a aventura começa lá.

O plano de hipnotismo global (e lunar) está dando certo: quase todos os personagens conhecidos são revistos, agora sob o poder do chefão final. Como no episódio 4, temos grandes distâncias a serem percorridas, mas agora com cenários tão elaborados quanto a Realidade 2.0. Os protagonistas descobrem o poder que levou todo mundo a migrar para aquela estação lunar e tornam-se capazes de diversos truques de mágica, inclusive tirar o rato da cartola e entortar colheres. Quando parece que está acabando, mais uma catástrofe acontece e Sam tem que salvar seu parceiro. No fim, temos o puzzle de chefe mais legal desde o confronto final com Myra Stump no episódio 2.

Bright Side of the Moon foi o episódio que mais me fez rir. Não sei se foi a euforia do fim de temporada, mas cada fala era engraçada, cada momento era divertido, cada quebra-cabeça era inteligente. Desde uma tiração de sarro com a balouçante bandeira dos EUA (“Como ela faz isso, se não tem vento na lua?”) até um divertido Jogo da Velha com o fliperama revoltado do episódio 5, tudo foi muito bem feito e acabado.

Retrospectiva geral: Must play um por dia, um por semana, até um por mês. Mas jogue todos, por mais que em um momento ou outro a coisa possa ficar cansativa: é diversão garantida com o cachorro prolixo e o coelho ultraviolento.

E sabe o que é melhor? Tem “1ª Temporada” no nome do jogo, o que já me deixa feliz só de pensar que vai haver mais desses.

12 respostas para Cachorros, coelhos e rainhas do Canadá

  1. Cephiro disse:

    Primeirão?

    Bom o post, Lipedal. Apesar dos spoilers…… que pelos episódios serem curtos não são tão spoilers assim.

  2. Lipedal disse:

    Eu tentei evitar o spoiler-mor, não revelando quem era o cara mau por trás de tudo no último episódio. Fora isso, é meio difícil expôr as características que fazem de Sam & Max um bom jogo sem soltar uns spoilerzinhos😦

  3. Cephiro disse:

    “é meio difícil expôr as características que fazem de Sam & Max um bom jogo sem soltar uns spoilerzinhos”

    Fui o único que pensou bobagem e riu disso?

  4. Nightshadew disse:

    Imagino que cada episódio custe uns 20 reais. Não que alguem aqui vá gastar dinheiro, mas enfim ~~

  5. Fabio Bracht disse:

    Tu é mestre, Lipe. Ficou do caralho a análise, com as fotinhos e as quotes. Não ficou grande demais (como teria ficado se eu tivesse analisado), mas ficou do tamanho certo. E resenhas de Sam & Max na internet nunca são demais. Quanto mais gente ouvir falar e ficar com vontade de jogar essa pérola, melhor.

  6. Argus disse:

    Bacana.

    Agora, como somos parte do povo mais pão-duro do mundo… onde podemos baixar, fora programas p2p?

    Obrigado.

  7. Lipedal disse:

    Night, Argus, “comprei” por torrent mesmo, http://torrentz.com

    Fabio, valeu *_*

  8. Argus disse:

    Ah sim.

    Bom, serve. Vou baixar semana que vem. Provas em excesso.

  9. Caramba! Confundia Sam e Max com Wallace e Gromit… como os dois tem um coelho sen-noção sempre confundia os dois… agora com google e esse post vi que não tem nada a ver um com o outro… tirando a parte do coelho e humor ‘alternativo’.

    Fiquei curioso quanto ao jogo… já tinha ouvido falar mas nunca me interessei mesmo por ele… só uma coisa que fiquei com dúvida: os grãficos do jogo são em tempo real mesmo ou são pré-renderizados tipo Resident Evil? E quais são as configurações mínimas pra rodar ele?

    Valeu e t´+

  10. Lipedal disse:

    Gráficos 3D em tempo real, Lucas. E de acordo com Pai Google, “PIII 800, 256MB RAM, 230MB HDD, 32MB video card“.

    Rodei tranqüilo num Athlon XP 1800+ 1.15GHz, 768MB RAM, vídeo ATI Radeon 9550 128MB.

  11. Valeu Lipedal… só mais uma coisa:
    Não sei se perdi alguma parte (juro que li tudo) ou alguma coisa parecida (tempo perdido por abdução de ET ou sei lá :-)). Mas até agora eu não consigo entender esse “e rainhas do Canadá” do título…é alguma coisa do jogo ou algo pra ninguém entender mesmo?

  12. Lipedal disse:

    Ficou sem noção mesmo, eu não sei criar títulos. Mas é um personagem de Bright Side of the Moon😉

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